Monday, 14 August 2017

Por que eu troquei meu carro antigo por um carro “moderno” mas nem tanto

Por que eu troquei meu carro antigo por um carro “moderno” mas nem tanto

Pegar a chave do carro, ir at� a garagem. For�ar a porta para conseguir abrir, pegar o cinto que est� todo enrolado ao lado do banco (porque os cintos n�o s�o retr�teis), sentar, bater o joelho no volante. Virar a chave. Lembrar que precisa injetar gasolina. Virar a chave de novo. Ouvir o motor de partida vacilar e pensar �a bateria!�. Tentar mais uma vez. Bombear o acelerador, ouvir o motor pegando, prestar aten��o no ronco. Quando estiver minimamente est�vel, conservar o acelerador levemente pressionado. Acender um cigarro. Esperar mais dois minutos, por precau��o. Pronto, podemos ir.

O par�grafo acima est� menos para uma descri��o po�tica de como � ter um carro antigo e mais para uma longa lista de obriga��es. E era assim sempre que eu queria sair de carro com o Robso, meu Gol LS 1985 com motor 1.6 a �lcool. De seus 81 cv de f�brica, calculo que 60 ainda estavam ali. Os outros foram embora junto com a sa�de do carburador, que estava com a base quebrada, oxidada e funcionando, n�o me perguntem como, sem um dos gicl�s. Nunca cheguei a ver o painel com conta-giros, pelo qual paguei dois pedais de guitarra (novinhos) e um viol�o (nem t�o novinho assim), instalado e funcionando. O carburador que eu comprei pelo Mercado Livre (n�o fa�am isso, pessoal) parecia novo ao olhar, mas simplesmente se recusava a �pegar regulagem�.

Nisso, o carro j� est� na oficina h� uns dois meses. N�o tenho tempo de ir busc�-lo, o dono da oficina conhece o carro muito bem e n�o tenho garagem para guardar � melhor que fique l� do que em frente � minha casa, por mais que o pobre ladr�o que fosse tentar roub�-lo provavelmente desistiria antes de chegar � metade do procedimento.

N�o me entendam mal. Eu continuo gostando de carros antigos, org�nicos, cheios de manha e de macetes. Mas eu n�o podia deixar passar a oportunidade que tive de troc�-lo por um carro mais moderno e confi�vel. E foi o que aconteceu. Ou vai acontecer em breve.

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O Robso ainda est� comigo, mas creio que n�o vai durar muito tempo. Em seu lugar, entrou outro hatch de duas portas: o vermelhinho l� em cima, Wilfred, um Uno Way 2008 na cor vermelho Alpine. Todo original.

Ah, os crit�rios que uso para batizar meus carros s�o segredo.

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�, � um Fiat. H� alguns anos, quando o FlatOut n�o existia e o Juliano, o Leo e eu escrev�amos no Jalopnik Brasil, convoquei os leitores para me ajudarem a escolher um novo carro. Eu tinha um Mille ELX 1995 e tenho quase certeza que ele n�o era �Mille� cois�ssima nenhuma, porque andava demais. Tenho saudades e me arrependo de ter cuidado t�o mal dele.

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Quem acompanha o FlatOut (e se interessa por minhas cr�nicas da vida real) deve lembrar que comprei o Gol depois de me mudar de cidade, em um rompante de �estou com o dinheiro na m�o e nunca mais vou achar um neg�cio como esse�. Eu estava redondamente enganado: o carro foi mal cuidado por seu dono e acabou dando mais trabalho e despesas do que eu esperava. E, na real, eu n�o deveria me surpreender, n�o �?

Claro, me diverti bastante com o Gol e aprendi muito com ele. Tive, quando ele funcionava, a experi�ncia de ver pessoas olhando quando eu passava e tentar decifrar se elas sentiam simpatia por aquele velhinho ou se estavam incomodadas com o ronco alto e estralado demais. Sa� de casa de banho tomado e voltei com cheiro de combust�o nas roupas. Fiquei sem combust�vel porque o marcador n�o funcionava (cl�ssico!), quebrei o motor de partida tentando faz�-lo pegar, quase fui multado porque os far�is n�o funcionavam direito, perdi os freios porque o fluido vazou todo� foi um ano cheio de aventuras. Peguei o carro em agosto de 2016.

�Mas o que aconteceu, Dalmo? Amarelou?�

Amarelei, sim. Quer dizer, meus colegas me disseram que � assim mesmo: ter um carro antigo para uso di�rio � recompensador, mas tudo que � recompensador tamb�m � dif�cil, sen�o n�o seria recompensador.  E tamb�m n�o � para todo mundo. Ou seja, n�o � quest�o de ter coragem ou n�o, e eu n�o preciso me sentir um frango.

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Eu n�o utilizava o carro todos os dias, mas sempre que sa�a com ele, era para pegar estradas, muitas vezes de terra. No �ltimo fim de semana, o primeiro com o Uno, peguei uma vicinal em Bofete, interior de S�o Paulo, que o Gol certamente n�o conseguiria transpor. N�o com seus 32 anos de idade, n�o nas condi��es em que estava. Para deix�-lo em condi��es de enfrentar o que o Fiat enfrentou, teria de gastar no m�nimo o valor que investi na compra do VW.

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Descendo a serra de Bofete, onde perdi os freios por superaquecimento � tive que parar, esper�-los esfriar e seguir viagem. N�o conseguiria fazer o mesmo com o Gol

N�o estou dizendo que n�o gosto do Gol e que o Fiat � muito melhor. Mas o Fiat � minimamente moderno a ponto de eu confiar nele para uma viagem e saber que, fazendo a manuten��o corretamente, ele n�o vai me deixar na m�o t�o facilmente. Ele � mais silencioso, mais confort�vel (ou menos desconfort�vel, no caso), tem vidros e travas el�tricos e satifaz minhas necessidades ao volante. Claro, quando se trata do Fiat Uno, eu n�o sou o cara mais imparcial que existe, mas voc�s entendem o que quero dizer.

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E tem outra coisa, falando em �necessidades ao volante�: o Uno fabricado no Brasil at� 2014 � o mais perto que se pode chegar de dirigir um carro antigo em um carro recente. E voc�s sabem que eu n�o estou falando besteira: o projeto do Uno foi virtualmente o mesmo de sua concep��o a sua aposentadoria: constru��o monobloco, suspens�o independente nas quatro rodas, motor pequeno na dianteira, linhas retas para melhorar o aproveitamento de espa�o no interior e um indefect�vel charme italiano (este nem todo mundo v�, mas est� l�), ainda que o desenho da carroceria, assinado por Giorgetto Giugiaro, tenha sido bastante desfigurado na �ltima reestiliza��o, que aconteceu l� em 2004.

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O painel � igual ao de 1995, exceto pelo od�metro digital e carca�a cinza em vez de preta

O Mille teve a ousadia de se manter no mercado com apenas o b�sico por trinta anos e, at� o �ltimo deles, at� que se segurou nas vendas e s� saiu de linha porque o custo de adaptar seu projeto para airbags e ABS n�o compensava o investimento. Quem s� precisava de um carro que protegesse da chuva comprava um Uno e, incidentalmente, acabava tendo a chance de sentir um pouco do que era dirigir um carro novo em 1984. Em esp�rito, e no modo de conduzir, meu carro ainda � um carro antigo. Dire��o sem assist�ncia, lata aparente, quase nada de isolamento ac�stico, nada engessado, nada anestesiado. De falta de envolvimento e comunicatividade n�o posso reclamar.

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S� que novo

Claro, ele ganhou um motor com inje��o eletr�nica e acelerador eletr�nico e, mesmo com os cortes de custo e a economia de escala, beneficiou-se bastante dos m�todos de produ��o modernos e do controle de qualidade muito mais rigoroso a que fabricantes e fornecedores submetem as pe�as. Com isto, mesmo sendo um carro extremamente simples e virtualmente id�ntico ao que era h� 30 anos, meu Uno consegue ser muito mais confi�vel do que um carro fabricado, de fato, h� 30 anos. Como o pobre do Robso, que j� foi repintado, teve o t�nel soldado, foi rebaixado e agora, est� parado.

Mas eu n�o o vendi, n�o: ele fez parte da negocia��o pelo Uno� que era do meu pai. Ou seja: � um carro que eu j� conhe�o. O Gol vai ficar com ele e, com sorte, vamos conseguir transform�-lo em um carro de lazer. Este sim, o uso perfeito para um carro antigo. A hora dele vai chegar.

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